Anais de Trabalhos Científicos 7º CBHV

Tratamento homeopático de cão com febre familiar dos Shar-peis

AUTORES

Marina Luiza Franco (UFMS)

Marina Luiza Franco (UFMS)

Artur Maggioni e Silva (UFMS)

Mônica Filomena Assis de Souza (Sigo Procedimentos Homeopáticos)

Karine Bonucielli Brum (UFMS)


RESUMO INTRODUÇÃO

A Febre Familiar dos cães Shar-peis (FFS) é uma doença inflamatória hereditária (1). Descrita como episódios de febre recorrente, com aumento de volume nas articulações tibiotársicas, podendo estar associada a amiloidose renal (2). Sua patogenesia não está totalmente esclarecida (2), mas é classificada como uma desordem auto inflamatória. Devido a defeitos genéticos no sistema imune inato mantém um quadro de inflamação persistente, acarretando em produção exagerada e contínua de proteínas inflamatórias, como IL-6 e amilóide A (1). Os eventos febris ocorrem de forma recidivante, geralmente auto limitante (1). A FFS também é caracterizada por aumento de volume, temperatura e sensibilidade em várias articulações, frequentemente, mas não exclusivamente, nas articulações do tarso (3). O animal apresenta claudicação, reluta ao movimento e quando anda parece estar “andando em ovos”. Podem apresentar dorso arqueado, perda de apetite e de sede, e ainda sinais gastrointestinais como vômito e diarreia (1). Foi descrita associação do quadro clássico à dermatite e otite (2,3). Não há exames específicos para o diagnóstico da FFS, estão em estudo testes que determinem os genes afetados (1). O diagnóstico clínico é baseado no histórico de episódios característicos da doença, associado a testes laboratoriais como urinálise e bioquímico (4). A terapia indicada é sintomática, com o uso de Meloxican para reduzir a febre e controlar a dor, ademais é indicado o uso continuo de Colchicina a fim de inibir a produção de proteína amilóide e prevenir o acúmulo desta no parênquima renal, sendo assim usado de forma preventiva (4). O prognóstico é incerto, ressaltando a importância de monitoramento constante dos animais portadores e ainda a indicação de retirar estes dos programas de reprodução (1). Os objetivos do presente trabalho foram, com o uso do simillimum, estabilizar um paciente incurável e evitar progressão da doença, como a amiloidose renal.


MATERIAL / MÉTODO

Canino, macho, Shar-pei, 3 anos, foi atendido no Ambulatório de Homeopatia Veterinária da UFMS em junho de 2012. Foi encaminhado com diagnóstico clínico de Febre Familiar dos Shar-peis. Apresentava, desde filhote, episódios de febre, apatia, prostração intensa, anorexia e também inchaço dos membros pélvicos, mais acentuado na região dos jarretes, de característica quente e dolorosa, ao toque e ao movimento. O animal fazia uso de Meloxican durante as crises. A tutora relata que o cão apresentava dermatite e otite esporádica há mais de um ano, foram feitos exames para diagnósticos diferenciais, mas todos com resultados negativos. Foi realizada terapia com Itraconazol para a pele e produtos otológicos comerciais, sem sucesso. A afecção de pele era caraterizada por alopecia nos membros pélvicos e na cauda, moderadamente pruriginosa, com intensificação do prurido em dias quentes, e ainda com escurecimento da pele nas regiões afetadas. Um animal muito calmo que passava a maior parte do tempo dormindo. Gostava de estar na companhia das pessoas, ficando deprimido se sozinho. Era sistemático com horários, apresentava comportamento territorialista, urinando em vários lugares pelo quintal. Não é amigo de outros animais, convive apenas com pessoas e adora crianças. Preferia água gelada e até cubos de gelo, bebendo grandes volumes poucas vezes ao dia. Alimentava-se de ração, só come quando seus tutores estão comendo também, esperava todos chegarem para comer. Ao exame físico o animal estava inquieto e excitado, apresentava edema bilateral na região dos jarretes, de consistência gelatinosa, quente e dolorosa, alopecia generalizada mais evidente nos membros pélvicos e cauda, e também edema e erosão na bolsa escrotal. O caso foi repertorizado (Tabela 1) e o medicamento prescrito foi Arsenicum album 2LM, sendo indicado o uso de 3 gotas SID, por via oral.


RESULTADO

Ao primeiro retorno, após um mês, a tutora relatou que com 15 dias de tratamento houve outro episódio da doença, com edema intenso na bolsa escrotal e prepúcio, com dificuldade de urinar, de início e conclusão breve, de um dia para o outro (agravação homeopática). Foram realizados hemograma, urinálise e ultrassonografia abdominal, sem alterações. Ao exame físico foi observado crescimento de pelos, com menos queda, e jarretes ligeiramente edemaciados. Foi prescrito Arsenicum album 3LM, 3 gotas SID. Houve grande melhora no seu quadro, com remissão de quase todos os sinais clínicos, permanecendo somente um eventual discreto edema nos membros pélvicos. O tratamento foi suspenso no início de março de 2013 e desde então faz retornos semestrais. Até maio de 2015 se manteve estável, sem alterações hematológicas e de bioquímica clínica, a pele se recuperou totalmente, não apresentou mais episódios da FFS e segundo a tutora “está ótimo e feliz”. Os sinais clínicos manifestados pelo paciente foram compatíveis com a doença (1,2,3). O quadro de dermatite e otite, até então sem etiologia, foram atribuídos a FFS, fundamentado em outros estudos (2,3). Segundo Frank, Heald (4) o diagnóstico pode ser feito clinicamente, procedimento adotado nesse estudo. O medicamento Arsenicum album cobriu todos os sintomas físicos, gerais e mentais apresentados pelo animal (Tabela 1) (5). Foi utilizada a escala LM por apresentar menor risco de agravações homeopáticas ou patogenesia do medicamento (6) e, ainda assim, o paciente apresentou uma breve agravação. O tratamento alopático convencional com o Meloxican não é aconselhável em longo prazo, devido aos seus efeitos colaterais, além de ser apenas paliativo e o uso da Colchicina não possui eficácia comprovada em casos de FFS (1,4). O tratamento homeopático mostrou-se eficiente e seguro na remissão dos sinais clínicos, estabelecendo o equilíbrio para esse cão, destacando-se como uma boa alternativa para o controle da FFS.

ANEXOS


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

1. Jeff V. Familial Shar-Pei Fever [Internet]. 2004 [acesso em 2015 agosto 12]. Disponível em: http://www.drjwv.com/article.php?view=0004.php
2. Sonne L, Oliveira EC., Santos AS, Pavarini SP, Júnior PSB, Antoniassi NAB, et al. Amiloidose sistêmica do tipo AA em um canino Shar-pei Chinês. Acta scientiae veterinariae [Internet]. 2008 [acesso em 2015 agosto 16]; 36(1):47-50. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/20647
3. Tellier LA. Immune-mediated vasculitis in a shar-pei with swollen hock syndrome. Can Vet J [Internet]. 2001 [acesso em 2015 agosto 16]; 42:137-139. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1476484/
4. Frank KA, Heald RD. Shar-Pei Fever. 2006 [acesso em 2015 agosto 12]; 8.6:7-10. Disponível em: http://www.hungarovet.com/wp-content/uploads/2007/08/shar-pei-fever-2006.pdf
5. Vijnovsky B. Tratado de Matéria Médica Homeopática. São Paulo: Editora Organon; 2003.
6. Villalva FF. As potências homeopáticas 50 milesimais. São Paulo: Editora Organon; 2009.

Palavras-chave: Arsenicum album, doença genética, simillimum